Dossiê entregue à UFSC mapeia efeitos da cirurgia de redesignação em mulheres trans
A professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Helena Moraes Cortes, entregou na manhã desta quinta-feira, 27 de agosto, à vice-reitora da instituição, Felipa Amadigi, o Dossiê Redesignadas: Mapeamento sobre Repercussões da Cirurgia de Redesignação Sexual em Mulheres Trans Brasileiras.
O estudo foi desenvolvido pelo Laboratório de Pesquisas, Tecnologias e Inovação em Enfermagem Psiquiátrica, Atenção Psicossocial e Transgeneridades (MentalTrans), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN) da Universidade, em parceria com o Instituto Nacional de Mulheres Redesignadas (Inamur), e reúne dados de abrangência nacional sobre saúde física e mental, sexualidade, qualidade de vida e acesso ao atendimento após o procedimento de redesignação genital.
Para a vice-reitora Felipa, o documento oferece subsídios importantes para o planejamento institucional. “Identificar essas experiências, necessidades e barreiras é fundamental para que a gestão universitária possa formular ações concretas, qualificar os serviços e fortalecer políticas institucionais que contribuam efetivamente para a garantia dos direitos, do respeito e da dignidade das pessoas trans dentro e fora da Universidade”, afirmou.
O levantamento inédito contou com a participação de mulheres trans e travestis redesignadas das cinco regiões brasileiras. Ao todo, 144 pessoas responderam ao questionário da pesquisa, 104 entrevistas em profundidade e 28 integraram grupos de convergência. A metodologia combinou informações quantitativas e qualitativas para identificar repercussões clínicas, emocionais, sociais e institucionais da cirurgia.

A professora da UFSC, Helena Moraes Cortes (dir.), entregou à vice-reitora da instituição, Felipa Amadigi, o “Dossiê Redesignadas: Mapeamento sobre Repercussões da Cirurgia de Redesignação Sexual em Mulheres Trans Brasileiras”. Foto: divulgação
Entre as participantes que responderam ao questionário, as idades variaram de 22 a 76 anos, com média de 40 anos. A maior parte fez uma cirurgia entre os 31 e os 44 anos, embora quase metade tenha iniciado uma transição social ou hormonal entre os 13 e 18 anos. Para a pesquisa, a diferença entre esses períodos ajuda a dimensionar as barreiras enfrentadas até o acesso ao procedimento, como o número limitado de serviços habilitados, a espera no Sistema Único de Saúde (SUS) e os custos da cirurgia na rede privada.
Os resultados mostram índices elevados de satisfação. Entre as entrevistadas, 86,1% afirmaram que a autoconfiança aumentou muito depois do procedimento, 79,8% declararam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com o resultado geral e 82,7% avaliaram que a cirurgia contribuiu positivamente para a sensação de segurança em espaços públicos. Os relatos também demonstram melhorias na autoestima, na saúde mental, na vida sexual, nas interações sociais e no alinhamento entre a identidade de gênero e o corpo.
Os benefícios, entretanto, convivem com dificuldades no atendimento pós-operatório. Segundo o dossiê, 64,6% das participantes enfrentaram alguma complicação depois da cirurgia. Entre os problemas relatados estão a deiscência de sutura, caracterizada pela abertura dos pontos, registrada em 54,8% dos casos, e a estenose vaginal, que pode provocar o estreitamento ou o encurtamento do canal, apontado em 46,2%.
Para a docente Helena, coordenadora do estudo, os resultados demonstram que a assistência não pode se limitar ao procedimento cirúrgico. O cuidado precisa considerar as repercussões da cirurgia na saúde mental, na sexualidade, nas relações sociais e na qualidade de vida, além de garantir o acompanhamento multiprofissional no longo prazo. “O desconhecimento dos profissionais no Sistema Único de Saúde para cuidarem das mulheres trans redesignadas aparece como uma dimensão importante. A transfobia institucional vai se revestindo de outras facetas que demandam intervenções importantes de toda a força de trabalho da saúde, especialmente da Enfermagem”, afirmou a pesquisadora.
O despreparo técnico, o desrespeito ao nome social e a objetificação dos corpos durante consultas aparecem entre os problemas relatados. O Ambulatório Trans foi apontado como o serviço mais procurado para atendimento em saúde mental, citado por 55,6% das participantes. As unidades básicas de saúde, embora sejam a principal porta de entrada do SUS, ainda são evitadas por parte dessas mulheres em razão do medo de discriminação e da falta de profissionais capacitados.
A cirurgia também não eliminou a exposição à violência e ao preconceito. Mesmo depois do procedimento, 52% das participantes afirmaram vivenciar transfobia com alguma frequência. A rua foi apontada como o principal local das ocorrências, presente em 50% dos relatos, seguido pelo ambiente de trabalho e pelos serviços de saúde, com 42,3%. Para 25,6% das entrevistadas, a violência também ocorre no ambiente familiar.
Além dos resultados, o projeto se diferencia pelo envolvimento direto de mulheres trans redesignadas na sua produção. A professora Helena, que compartilha essa identidade, avalia que a composição da equipe contribuiu para estabelecer relações de confiança com as participantes e formular perguntas relacionadas às experiências da população pesquisada. “Deixamos de ser apenas objeto de pesquisa e passamos a ocupar o lugar de quem pensa, analisa e produz conhecimento sobre a própria realidade”, declarou. Segundo a professora da UFSC, essa abordagem rompe com uma tradição acadêmica em que pessoas trans e travestis são frequentemente estudadas sob perspectivas externas, sem atuação direta na construção das pesquisas.
O Dossiê está disponível para consulta pública, e a expectativa é que as evidências reunidas orientem políticas públicas mais inclusivas e ajudem a construir um modelo de atendimento que assegure cuidado continuado, humanizado e livre de transfobia.
Com informações do Coren-RS e Notícias UFSC.
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