Conectar pesquisadores, laboratórios e diferentes áreas de atuação para transformar competências já existentes na Universidade em novas possibilidades de pesquisa, inovação e desenvolvimento. É esse o movimento impulsionado pela Rede Biotech, criada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2024 e credenciada pela Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq). Atualmente, a iniciativa reúne 48 professores de diferentes departamentos e centros de ensino, além de pós-doutorandos, estudantes, programas de pós-graduação, laboratórios e instituições parceiras, articulando conhecimentos e infraestrutura em torno de projetos nas áreas de Biodiversidade e Biotecnologia.
Para o pró-reitor de Pesquisa, Jacques Mick, essa experiência pode contribuir para a organização institucional da pesquisa em áreas estratégicas da UFSC. Ao reunir essas competências em uma estrutura institucional, torna-se mais fácil identificar os grupos, as especialidades e as modalidades de pesquisa existentes na Universidade, favorecendo a formação de equipes multidisciplinares e a elaboração de projetos que combinem conhecimentos especializados e infraestruturas específicas.
Para a professora da UFSC e superintendente de Projetos da Propesq, Gislaine Fongaro, a constituição de redes representa uma forma de regulamentar as colaborações que já estão presentes entre diferentes grupos de pesquisa da Universidade. “Transformar isso em rede é um caminho natural. Muitos já operam de forma articulada, mas não se encontram institucionalizadas”, afirma. Segundo ela, a formalização permite reunir competências complementares, compartilhar e otimizar espaços, ampliar a segurança nos laboratórios e fortalecer ações de internacionalização e de transferência de tecnologia.
Na UFSC, a criação e o funcionamento de redes de pesquisa são regidas por resoluções do Conselho Universitário (CUn), assim como grupos, laboratórios multiusuários, núcleos, institutos, cátedras e observatórios. Gislaine também acrescenta que “as redes são constituídas em torno de temas científicos de interesse comum e pressupõem uma colaboração organizada e contínua entre pesquisadores, que vai além de uma parceria pontual ou de um projeto específico”. Nesse contexto, a Rede Biotech também está registrada no Sistema Integrado de Gerenciamento de Projetos de Pesquisa e de Extensão (SIGPEX), que reúne todas as informações sobre pesquisadores, estudantes, colaboradores externos e atividades desenvolvidas.
Laboratórios e programas de pós-graduação envolvidos na Rede
Eixos de atuação
A diversidade de competências da Rede Biotech se reflete nas diferentes frentes de investigação desenvolvidas por seus integrantes. Em artigo publicado na revista acadêmica internacional Trends in Biotechnology, a iniciativa é apresentada a partir dos seguintes eixos: transição ecológica, engenharia de bioprocessos, biotecnologia de precisão, saúde (One Health) e transição energética. A publicação também destaca a engenharia de bioprodutos, área dedicada ao desenvolvimento de moléculas, materiais e processos com potencial de aplicação industrial.
Na transição ecológica, os estudos abrangem biotecnologia vegetal e de algas, tratamento de efluentes, monitoramento ambiental e identificação de poluentes emergentes. Entre as pesquisas estão trabalhos de sequenciamento e caracterização de genomas de espécies vegetais, cultivo de microalgas e macroalgas e desenvolvimento de processos e produtos a partir de sua biomassa. As investigações buscam ampliar o conhecimento sobre recursos biológicos e, ao mesmo tempo, desenvolver alternativas para seu aproveitamento sustentável e para a redução de impactos ambientais.
A transição energética concentra pesquisas voltadas à produção de combustíveis renováveis e ao aproveitamento de diferentes tipos de biomassa, além de iniciativas relacionadas à recuperação ambiental. Um dos projetos destacados no artigo é o “Cannabiofuel”, desenvolvido em colaboração com a Polícia Federal, que investiga a conversão, por meio de pirólise, de biomassa de cannabis apreendida em biocombustíveis. A proposta é dar uma destinação alternativa a um material que seria incinerado, transformando-o em produtos como bioóleo, biogás, biocarvão e vinagre pirolítico. A pesquisa avalia o potencial desses materiais e seus possíveis usos em processos energéticos, associando a investigação científica ao aproveitamento de resíduos e à busca por novas fontes de energia.
Na engenharia de bioprocessos, as equipes estudam formas de tornar mais eficientes sistemas de produção baseados em processos fermentativos e enzimáticos. Um dos desafios é fazer com que tecnologias desenvolvidas em laboratório possam ser ampliadas para aplicações industriais, mantendo eficiência, viabilidade econômica e segurança. Os estudos envolvem o uso de consórcios microbianos, o controle de biofilmes e análises técnico-econômicas e de ciclo de vida dos processos.
Já a engenharia de bioprodutos concentra pesquisas voltadas à obtenção e ao aprimoramento de produtos de interesse científico e industrial. Entre os trabalhos estão estudos com bioaromas, biossurfactantes, pigmentos e outras moléculas bioativas, além do desenvolvimento de processos enzimáticos destinados à indústria têxtil. A área também envolve tecnologias de separação e purificação e pesquisas relacionadas à produção de estruturas de suporte para carne cultivada, campo que demanda conhecimentos de diferentes áreas da biotecnologia e da engenharia.
A biotecnologia de precisão reúne ferramentas de biologia molecular, bioinformática e abordagens ômicas para investigar sistemas biológicos em diferentes níveis de complexidade. Entre as aplicações estão a identificação de biomarcadores associados a doenças infecciosas e ao câncer, o desenvolvimento de estratégias vacinais e pesquisas de cultivo in vitro e micropropagação de espécies vegetais.
No eixo de saúde, a perspectiva de One Health amplia o olhar sobre as relações entre saúde humana, animal e ambiental. Nesse contexto, os pesquisadores desenvolvem estudos sobre doenças negligenciadas, como a de Chagas e leishmaniose, além de pesquisas relacionadas a doenças neurodegenerativas, terapias regenerativas e biomateriais. Também fazem parte desse conjunto investigações sobre o potencial terapêutico de canabinoides, especialmente em estudos relacionados à neuroproteção e à medicina regenerativa.
Pesquisa e inovação
A aproximação entre produção científica e inovação é outra dimensão da atuação da Rede Biotech. As pesquisas desenvolvidas pelos grupos participantes abrangem possibilidades de aplicação em setores como saúde, agricultura, indústria, meio ambiente e produção de energia. Entre os exemplos, uma pesquisa que prevê a proteção intelectual de uma pomada à base de canabidiol (CBD) destinada ao uso veterinário.
O processo de transformar resultados obtidos nos laboratórios em tecnologias, produtos ou processos aplicáveis em diferentes setores pode abrir novas possibilidades de cooperação entre a Universidade e o setor produtivo. A transferência de tecnologia também pode contribuir para ampliar a escala de soluções desenvolvidas em ambiente acadêmico e aproximar a pesquisa de demandas identificadas fora da Universidade. “A vantagem é de imagem, de receita própria e de uma agenda de cooperação entre a nossa pesquisa avançada e a indústria”, explica Mick.
A busca por financiamento permanece vinculada aos próprios pesquisadores e grupos que integram a Rede, que desenvolvem suas iniciativas e procuram fontes de recursos de acordo com as características de cada pesquisa. A estrutura institucional funciona como espaço de articulação dessas competências e também prevê a organização de um portfólio de pesquisas, a prestação de serviços, a oferta de cursos, a realização de workshops e encontros científicos e ações de divulgação científica.
Cooperação e novas oportunidades
A articulação com instituições externas amplia o alcance das pesquisas desenvolvidas pela Rede Biotech. Atualmente, a iniciativa mantém cooperações com instituições como o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a Associação da Rede de Biotecnologia da Região Sul (SulBiotec). A rede também busca ampliar essa parceria no Brasil e no exterior.
A experiência acumulada pelos pesquisadores também contribuiu para a criação do Instituto Nacional de Biofábricas (INCT-Biofábricas). Coordenado por Débora de Oliveira, o instituto deverá contribuir para ampliar a escala de processos e produtos inicialmente desenvolvidos em ambiente laboratorial. A proposta foi aprovada com financiamento público do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
As atividades da rede dialogam ainda com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, especialmente em temas relacionados à saúde, segurança alimentar, preservação ambiental, inovação e desenvolvimento econômico sustentável. A relação com esses objetivos aparece nas diferentes frentes de investigação, que envolvem desde a conservação e o uso sustentável de recursos biológicos até a criação de processos industriais, produtos para a área da saúde e alternativas para a produção de energia.
Com informações do site redebiotech.ufsc.br e de artigo publicado na revista Trends in Biotechnology, que se encontra disponível para leitura nesta página.
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