Rede Biotech integra pesquisadores e amplia atuação da UFSC em áreas estratégicas

24/09/2026 16:36

Conectar pesquisadores, laboratórios e diferentes áreas de atuação para transformar competências já existentes na Universidade em novas possibilidades de pesquisa, inovação e desenvolvimento. É esse o movimento impulsionado pela Rede Biotech, criada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2024 e credenciada pela Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq). Atualmente, a iniciativa reúne 48 professores de diferentes departamentos e centros de ensino, além de pós-doutorandos, estudantes, programas de pós-graduação, laboratórios e instituições parceiras, articulando conhecimentos e infraestrutura em torno de projetos nas áreas de Biodiversidade e Biotecnologia.

Para o pró-reitor de Pesquisa, Jacques Mick, essa experiência pode contribuir para a organização institucional da pesquisa em áreas estratégicas da UFSC. Ao reunir essas competências em uma estrutura institucional, torna-se mais fácil identificar os grupos, as especialidades e as modalidades de pesquisa existentes na Universidade, favorecendo a formação de equipes multidisciplinares e a elaboração de projetos que combinem conhecimentos especializados e infraestruturas específicas.

Para a professora da UFSC e superintendente de Projetos da Propesq, Gislaine Fongaro, a constituição de redes representa uma forma de regulamentar as colaborações que já estão presentes entre diferentes grupos de pesquisa da Universidade. “Transformar isso em rede é um caminho natural. Muitos já operam de forma articulada, mas não se encontram institucionalizadas”, afirma. Segundo ela, a formalização permite reunir competências complementares, compartilhar e otimizar espaços, ampliar a segurança nos laboratórios e fortalecer ações de internacionalização e de transferência de tecnologia.

Na UFSC, a criação e o funcionamento de redes de pesquisa são regidas por resoluções do Conselho Universitário (CUn), assim como grupos, laboratórios multiusuários, núcleos, institutos, cátedras e observatórios. Gislaine também acrescenta que “as redes são constituídas em torno de temas científicos de interesse comum e pressupõem uma colaboração organizada e contínua entre pesquisadores, que vai além de uma parceria pontual ou de um projeto específico”. Nesse contexto, a Rede Biotech também está registrada no Sistema Integrado de Gerenciamento de Projetos de Pesquisa e de Extensão (SIGPEX), que reúne todas as informações sobre pesquisadores, estudantes, colaboradores externos e atividades desenvolvidas.

Laboratórios e programas de pós-graduação envolvidos na Rede

Eixos de atuação

A diversidade de competências da Rede Biotech se reflete nas diferentes frentes de investigação desenvolvidas por seus integrantes. Em artigo publicado na revista acadêmica internacional Trends in Biotechnology, a iniciativa é apresentada a partir dos seguintes eixos: transição ecológica, engenharia de bioprocessos, biotecnologia de precisão, saúde (One Health) e transição energética. A publicação também destaca a engenharia de bioprodutos, área dedicada ao desenvolvimento de moléculas, materiais e processos com potencial de aplicação industrial.

Na transição ecológica, os estudos abrangem biotecnologia vegetal e de algas, tratamento de efluentes, monitoramento ambiental e identificação de poluentes emergentes. Entre as pesquisas estão trabalhos de sequenciamento e caracterização de genomas de espécies vegetais, cultivo de microalgas e macroalgas e desenvolvimento de processos e produtos a partir de sua biomassa. As investigações buscam ampliar o conhecimento sobre recursos biológicos e, ao mesmo tempo, desenvolver alternativas para seu aproveitamento sustentável e para a redução de impactos ambientais.

A transição energética concentra pesquisas voltadas à produção de combustíveis renováveis e ao aproveitamento de diferentes tipos de biomassa, além de iniciativas relacionadas à recuperação ambiental. Um dos projetos destacados no artigo é o “Cannabiofuel”, desenvolvido em colaboração com a Polícia Federal, que investiga a conversão, por meio de pirólise, de biomassa de cannabis apreendida em biocombustíveis. A proposta é dar uma destinação alternativa a um material que seria incinerado, transformando-o em produtos como bioóleo, biogás, biocarvão e vinagre pirolítico. A pesquisa avalia o potencial desses materiais e seus possíveis usos em processos energéticos, associando a investigação científica ao aproveitamento de resíduos e à busca por novas fontes de energia.

Na engenharia de bioprocessos, as equipes estudam formas de tornar mais eficientes sistemas de produção baseados em processos fermentativos e enzimáticos. Um dos desafios é fazer com que tecnologias desenvolvidas em laboratório possam ser ampliadas para aplicações industriais, mantendo eficiência, viabilidade econômica e segurança. Os estudos envolvem o uso de consórcios microbianos, o controle de biofilmes e análises técnico-econômicas e de ciclo de vida dos processos.

Já a engenharia de bioprodutos concentra pesquisas voltadas à obtenção e ao aprimoramento de produtos de interesse científico e industrial. Entre os trabalhos estão estudos com bioaromas, biossurfactantes, pigmentos e outras moléculas bioativas, além do desenvolvimento de processos enzimáticos destinados à indústria têxtil. A área também envolve tecnologias de separação e purificação e pesquisas relacionadas à produção de estruturas de suporte para carne cultivada, campo que demanda conhecimentos de diferentes áreas da biotecnologia e da engenharia.

A biotecnologia de precisão reúne ferramentas de biologia molecular, bioinformática e abordagens ômicas para investigar sistemas biológicos em diferentes níveis de complexidade. Entre as aplicações estão a identificação de biomarcadores associados a doenças infecciosas e ao câncer, o desenvolvimento de estratégias vacinais e pesquisas de cultivo in vitro e micropropagação de espécies vegetais.

No eixo de saúde, a perspectiva de One Health amplia o olhar sobre as relações entre saúde humana, animal e ambiental. Nesse contexto, os pesquisadores desenvolvem estudos sobre doenças negligenciadas, como a de Chagas e leishmaniose, além de pesquisas relacionadas a doenças neurodegenerativas, terapias regenerativas e biomateriais. Também fazem parte desse conjunto investigações sobre o potencial terapêutico de canabinoides, especialmente em estudos relacionados à neuroproteção e à medicina regenerativa.

Pesquisa e inovação

A aproximação entre produção científica e inovação é outra dimensão da atuação da Rede Biotech. As pesquisas desenvolvidas pelos grupos participantes abrangem possibilidades de aplicação em setores como saúde, agricultura, indústria, meio ambiente e produção de energia. Entre os exemplos, uma pesquisa que prevê a proteção intelectual de uma pomada à base de canabidiol (CBD) destinada ao uso veterinário.

O processo de transformar resultados obtidos nos laboratórios em tecnologias, produtos ou processos aplicáveis em diferentes setores pode abrir novas possibilidades de cooperação entre a Universidade e o setor produtivo. A transferência de tecnologia também pode contribuir para ampliar a escala de soluções desenvolvidas em ambiente acadêmico e aproximar a pesquisa de demandas identificadas fora da Universidade. “A vantagem é de imagem, de receita própria e de uma agenda de cooperação entre a nossa pesquisa avançada e a indústria”, explica Mick.

A busca por financiamento permanece vinculada aos próprios pesquisadores e grupos que integram a Rede, que desenvolvem suas iniciativas e procuram fontes de recursos de acordo com as características de cada pesquisa. A estrutura institucional funciona como espaço de articulação dessas competências e também prevê a organização de um portfólio de pesquisas, a prestação de serviços, a oferta de cursos, a realização de workshops e encontros científicos e ações de divulgação científica.

Cooperação e novas oportunidades

A articulação com instituições externas amplia o alcance das pesquisas desenvolvidas pela Rede Biotech. Atualmente, a iniciativa mantém cooperações com instituições como o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a Associação da Rede de Biotecnologia da Região Sul (SulBiotec). A rede também busca ampliar essa parceria no Brasil e no exterior.

A experiência acumulada pelos pesquisadores também contribuiu para a criação do Instituto Nacional de Biofábricas (INCT-Biofábricas). Coordenado por Débora de Oliveira, o instituto deverá contribuir para ampliar a escala de processos e produtos inicialmente desenvolvidos em ambiente laboratorial. A proposta foi aprovada com financiamento público do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

As atividades da rede dialogam ainda com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, especialmente em temas relacionados à saúde, segurança alimentar, preservação ambiental, inovação e desenvolvimento econômico sustentável. A relação com esses objetivos aparece nas diferentes frentes de investigação, que envolvem desde a conservação e o uso sustentável de recursos biológicos até a criação de processos industriais, produtos para a área da saúde e alternativas para a produção de energia.

Com informações do site redebiotech.ufsc.br e de artigo publicado na revista Trends in Biotechnology, que se encontra disponível para leitura nesta página.

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UFSC realiza manejo preventivo de árvores no Campus da Trindade

16/09/2026 09:43

Por iniciativa do Gabinete da Reitoria (GR) e da Direção do Centro de Ciências Biológicas (CCB) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), uma equipe do Corpo de Bombeiros esteve, na manhã desta terça-feira, 15 de setembro, no Campus da Trindade, em Florianópolis, para auxiliar na poda e na remoção de árvores mortas. A ação busca reduzir os riscos para a comunidade universitária e evitar danos às edificações, diante da ocorrência frequente de quedas de galhos e troncos.

Os trabalhos foram realizados sem incidentes e acompanhados por servidores da Secretaria de Segurança Institucional (SSI), da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) e do CCB, representado pelo chefe do Departamento de Botânica, Leonardo Rubi Rörig.

De acordo com professor Leonardo, os pedidos de poda ou remoção dessas árvores haviam sido encaminhados há alguns anos, mas ainda não tinham sido atendidos. Algumas delas apresentavam risco de queda sobre o Núcleo de Desenvolvimento Infantil (NDI) e imóveis vizinhos.

O professor destacou que o campus da UFSC constitui uma área verde de elevada importância para a biodiversidade de Florianópolis. Ressaltou, entretanto, que as árvores possuem ciclos naturais de vida e, quando estão fora de um sistema florestal ou localizadas próximas a edificações, podem ficar mais suscetíveis aos efeitos dos ventos, das chuvas, do apodrecimento e do acúmulo de epífitas.

Por esse motivo, conforme explicou o docente, é necessário realizar o manejo contínuo da vegetação, com acompanhamento das condições fitossanitárias das árvores e a adoção de medidas preventivas e corretivas. “As ações de hoje, que deverão continuar por algumas semanas, representam o início da solução para esses problemas e riscos”, declarou.

Nos casos em que há necessidade de remoção, os procedimentos são precedidos de solicitação de autorização à Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram). Leonardo também ressaltou o profissionalismo e a capacidade técnica da equipe do Corpo de Bombeiros na execução do trabalho. Além das intervenções nas árvores, os bombeiros orientaram o NDI e o Departamento de Botânica sobre o isolamento de áreas com risco elevado de queda de galhos, contribuindo para ampliar a segurança da comunidade universitária.

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Administração Central informa sobre impactos das chuvas na UFSC

31/08/2026 18:10

A Administração Central da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) informa à comunidade universitária sobre a situação em diferentes pontos dos campi de Florianópolis, localizados nos bairros Trindade e Itacorubi, em razão das chuvas intensas e volumosas registradas nesta segunda-feira, 31 de agosto. Segundo o reitor Amir de Oliveira, “é fundamental adotarmos medidas preventivas para preservar a segurança da comunidade universitária e evitar transtornos de maior gravidade”.

O reitor e a vice-reitora Felipa Amadigi acompanharam na tarde desta segunda-feira os trabalhos de remoção de sedimentos e resíduos lenhosos no Córrego da Serrinha, no trecho canalizado que se estende até o Colégio de Aplicação (CA).

As equipes de manutenção da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) realizaram inspeções preventivas para monitorar as condições das instalações e, de acordo com a secretária Carolina Peña, a situação verificada até o momento é a seguinte:

Biblioteca Universitária (BU): foram identificadas goteiras já existentes e que serão contempladas pela manutenção geral das coberturas, previstas em novo contrato específico, com início em setembro deste ano. A equipe da BU está ciente da situação e mantém pontos de monitoramento interno para o caso de agravamento. A PU também disponibilizou lonas preventivamente. Pela recorrência dessas questões de infraestrutura, a BU realizou atendimento parcial nesta segunda-feira, mantendo o acesso somente nas salas de leitura individuais.

Centro de Ciências Biológicas (CCB), prédio da Morfologia: o nível do rio vem apresentando elevação gradual mas sem extravasamento até o momento. O CCB foi orientado a reposicionar as sacas de areia como medida preventiva. Também foi identificado o entupimento de uma calha em uma das lajes. A verificação e os reparos serão realizados por meio do contrato de manutenção hidráulica vigente assim que as condições adversas permitirem.

Restaurante Universitário (RU) da Trindade: as intervenções recentes nos telhados solucionaram grande parte dos problemas registrados anteriormente. Os vestiários, o depósito e a área de lavagem encontram-se em condições adequadas com alguns pontos sob monitoramento. Foi identificada a necessidade de calafetação no encontro entre coberturas com esquadrias de vidro, serviço que será melhor avaliado após o término da chuva. Até o momento, a situação não prejudica as atividades.

RU do do Centro de Ciências Agrárias (CCA): este é o ponto que exige maior atenção, em razão de problemas relacionados a questões executivas. O acionamento da garantia da obra foi realizado e aguarda-se retorno da empresa (fora de Florianópolis). Assim que a chuva cessar, serão verificadas as descidas de águas pluviais por meio do contrato de manutenção hidráulica. Os possíveis impactos das goteiras sobre o funcionamento do restaurante deverão ser avaliados pelo CCA.

Alojamento Indígena (Maloca): foram observados danos na cobertura na região do refeitório onde ações pontuais de vedação serão realizadas nos locais afetados assim que existam condições seguras para execução dos serviços. A substituição de telhas e manutenção da infiltração localizada em dois pontos dos dormitórios serão realizadas a partir do novo contrato de coberturas previsto para setembro. Foram disponibilizadas lonas e os alunos orientados pela relocação de mobiliário da área afetada.

As bombas de sucção instaladas na UFSC foram vistoriadas por equipe da empresa responsável e, até o momento, encontram-se funcionais. Também não foram registradas ocorrências elétricas de maior gravidade.

A Administração Central da UFSC permanece monitorando a situação e às condições adversas, adotando as medidas preventivas para garantir a segurança e a proteção da comunidade universitária.

Fluxos para solicitação de serviços de manutenção podem ser acessados em: pu.ufsc.br/servicos-de-atendimento-de-demandas-de-infraestrutura.

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UFSC inaugura Instituto de Ecologização de Mares, Campo e Cidades para Combate à Fome e Pobreza

24/06/2026 17:00

Programa de Pesquisa e Inovação com Algas será a primeira ação do Instituto de Ecologização de Mares, Campo e Cidades para o Combate à Fome e à Pobreza (Fotos: Divulgação)

A Universidade Federal de Santa Catarina inaugurou no sábado, 20 de junho, o primeiro Instituto de Ecologização de Mares, Campo e Cidades para o Combate à Fome e à Pobreza. O espaço, na Fazenda Ressacada, passa a integrar a estrutura institucional com o propósito de fomentar o ensino, pesquisa e extensão nas áreas de ciências agrárias e ciências biológicas. A iniciativa deverá se dedicar à produção de arranjos e saberes que poderão contribuir para o combate à fome e à pobreza.

A ideia do instituto nasceu de uma visita do Ministro Wellington Dias, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. O ministro incentivou a criação do instituto para ser um modelo acadêmico dentro da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza, iniciativa à qual a UFSC foi a primeira universidade brasileira a aderir. Uma emenda parlamentar viabilizou os recursos usados na reforma do espaço e a proposta ganhou apoio institucional do Gabinete da Reitoria, do Centro de Ciências Agrárias (CCA), do Centro de Ciências Biológicas (CCB), centros e departamentos da UFSC, além de instituições do Estado e da sociedade civil.

A solenidade de inauguração contou com a presença do reitor Irineu Manoel de Souza; da vice-reitora Olga Regina Zigelli Garcia; da diretora do CCA, Marlene Grade; do diretor do CCB, Rui Prediger; autoridades políticas, líderes de associações de pescadores e de maricultores; professores e servidores administrativos da UFSC e representantes da sociedade civil.

O professor Paulo Horta, um dos idealizadores do Instituto e coordenador das ações, agradeceu pelo apoio recebido, e a cada uma e cada um “que dedicaram recursos e esforços para transformar um prédio em um espaço de construção de pesquisa, inovação, extensão e ensino, em uma perspectiva crítica e emancipadora”.

Inauguração do Instituto, no dia 20 de junho, teve a presença de diversos apoiadores do projeto

Nesta primeira etapa, o instituto implementará o programa de Pesquisa e Inovação com Algas, conjunto de projetos que devem auxiliar maricultores a expandir e diversificar a produção de algas no Brasil. De acordo com o professor Horta, o Instituto buscará novos apoios para viabilizar a implementação de uma biorrefinaria de produção de fertilizantes, para fomentar a agricultura familiar a produzir alimento saudável de forma resiliente, sem agrotóxicos.

“Este projeto pode ser a ponte que vai potencializar a aproximação entre maricultores e agricultores, construindo uma base fundamental para termos mares, campo e cidades resistentes e resilientes aos desafios do século 21, quando o agravamento da crise climática e humanitária ameaça o pacto civilizatório”, disse o professor.

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Cannabis Medicinal: UFSC reforça necessidade da cadeia produtiva e de conhecimento em SC

26/08/2025 10:59

Audiência pública realizada no dia 25 de agosto, na Alesc, sobre a regulamentação e o uso da Cannabis Medicinal no estado. Imagem: TVAL

A audiência pública realizada na noite desta segunda-feira, 25 de agosto, no Auditório Antonieta de Barros, da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), fortaleceu o debate sobre a regulamentação e o uso da Cannabis Medicinal no estado, ampliando o diálogo com a sociedade sobre os benefícios e desafios relacionados ao seu uso terapêutico no tratamento de doenças crônicas e neurológicas.

O evento reuniu parlamentares, médicos, pesquisadores, advogados, pacientes, cuidadores e familiares para discutir políticas públicas que garantam maior acesso da população catarinense aos tratamentos à base de cannabis, enfrentando barreiras legais e econômicas que impõem dificuldades a diversas famílias. Atualmente, muitos pacientes dependem de processos judiciais ou da importação de medicamentos de alto custo, o que limita o direito constitucional à saúde.

Entre os pontos centrais do debate foi a ampliação do acesso à cannabis medicinal como recurso terapêutico para diferentes condições de saúde, a redução da judicialização e o fortalecimento da pesquisa científica sobre o tema. Além disso, foi discutida a criação de uma cadeia produtiva própria em Santa Catarina, com potencial para gerar emprego, renda e inovação. A audiência também abordou experiências já existentes no estado e no Brasil, incluindo aspectos relacionados à regulamentação, distribuição, prescrição médica e acompanhamento dos tratamentos.

A discussão da temática foi promovida pela Comissão de Saúde da Alesc e pelo Gabinete da deputada estadual Ana Paula da Silva (Paulinha), após a implementação da Lei Estadual 19.136 de 2024, que regulamenta o fornecimento de medicamentos à base de cannabis por intermédio do Sistema Único de Saúde (SUS), abordando aspectos legais, médicos, sociais e sanitários. A audiência destacou a experiência e os desafios enfrentados por pacientes, famílias e associações, como a Santa Cannabis, na busca por acesso e qualidade do tratamento. Além disso, foram apresentadas evidências científicas e propostas de colaboração entre entidades governamentais, universidades e associações para otimizar a produção local, capacitar profissionais de saúde e expandir o alcance da terapia. O evento, ainda, reforçou a necessidade de superar barreiras burocráticas e ideológicas para garantir que mais catarinenses se beneficiem da cannabis medicinal.

Na mesa de abertura a participação de dois professores da UFSC: Rubens Nodari, do Centro de Ciências Agrárias (CCA), e Rui Prediger, do Centro de Ciências Biológicas (CCB). Ambos os pesquisadores reiteraram a importância da ciência e da pesquisa para o avanço do uso da cannabis medicinal, bem como a necessidade de quebrar preconceitos e criar uma cadeia produtiva e de conhecimento em Santa Catarina. Também acompanharam a audiência o pró-reitor de pesquisa e Inovação da Universidade, Jacques Mick, e a professora do CCA e diretora de Pós-Graduação da UFSC, Rosete Pescador.

O professor de Agronomia, Rubens Nodari, contextualizou que “a cannabis é uma das cinco plantas sagradas da China” e “foi utilizada como alimento pelas antigas civilizações, devido à similaridade de seus grãos com outros cereais”. Nodari ressaltou que a proibição da planta se estabeleceu por interesses econômicos devido aos seus inúmeros benefícios.

O professor Rubens trouxe a mensagem de colegas da UFSC e de outras faculdades de Agronomia do estado que pesquisam formas de produção em conjunto com as associações. Ele sugeriu que é possível avançar no desenvolvimento da cultura da cannabis através de “estudos de aclimatação, diminuição do custo de produção, propagação adequada e desenvolvimento de variedades que, eventualmente, tenham a combinação de compostos mais adequados para diferentes patologias”.

Nodari defendeu a ampliação da produção “junto à agricultura familiar, de forma agroecológica e sem o uso de químicos”, para preservar os compostos da planta. Ele argumentou que isso fortaleceria a cadeia produtiva e traria independência ao país no tratamento da saúde, promovendo um acesso mais justo e democrático.

O docente mencionou que, nos Estados Unidos, a área cultivada de cannabis dobra anualmente, com produtores de soja migrando para esse mercado. No entanto, esses produtos são exportados para o Brasil a “preço de ouro”. A participação da agricultura catarinense, segundo ele, visa criar uma cadeia produtiva local e evitar essa dependência.

O professor de Farmacologia, Rui Prediger, abordou que a UFSC “é protagonista nas pesquisas que envolvem substâncias canabinoides”, com estudos iniciados já na década de 1980 pelo professor Reinaldo Takahashi. Atualmente, o CCB “conta com mais de 800 pesquisadores e dezenas de laboratórios” dedicados a essas investigações.

Em colaboração com o professor Francisney Nascimento, a UFSC tem conduzido “os dois maiores estudos a nível mundial com doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer, realizados em solo brasileiro e catarinense”.

Um ponto crucial, segundo Prediger, é “a capacitação dos profissionais de saúde”, não apenas médicos, mas também enfermeiros, farmacêuticos e nutricionistas. Ele mencionou o curso de Endocanabinologia da UFSC, em parceria com o Instituto Dalla, que “já capacitou mais de 2 mil profissionais no Brasil e países vizinhos”.

O professor Rui explicou que a Endocanabinologia estuda as substâncias canabinoides produzidas pelo próprio organismo humano e de outros animais. “Com o envelhecimento ou em condições patológicas, pode haver um desequilíbrio na produção dessas substâncias”. O tratamento com cannabis, nesse contexto, é visto como uma reposição de substâncias naturais, similar à reposição hormonal ou de vitaminas.

Prediger concluiu reafirmando que a UFSC, juntamente com a comunidade catarinense e os parlamentares, “está à disposição para ampliar essa formação tanto para estudantes da área da saúde quanto para profissionais de todo o estado”.

“Hoje temos uma discussão mais ampla sobre o medicamento, mas precisamos, de fato, das plantas para produzir esses medicamentos ou os compostos”, afirmou a professora Rosete Pescador, em sua participação na audiência. Ela sugeriu que a Secretaria da Agricultura deveria participar mais ativamente desse debate, com o objetivo de promover uma colaboração mais próxima com a agricultura familiar. “O plantio da cannabis na agricultura familiar, além de garantir a produção dos compostos, também fortalece a própria agricultura familiar no sentido de ganho financeiro”, destacou.

Rosete também apontou os desafios enfrentados pelas universidades no desenvolvimento de pesquisas relacionadas à planta, principalmente pela falta de segurança jurídica. A pesquisadora ressaltou ainda as potencialidades do CCA para contribuir com o desenvolvimento da cadeia produtiva da cannabis. “Temos muitas expertises no CCA que poderiam contribuir para o melhoramento das plantas, o controle de doenças e a propagação, especialmente em sistemas indoor, que é onde atuo como pesquisadora”, explicou.

Por último, a docente destacou a importância de a Universidade estar inserida em todas as etapas do processo. “Acho que esse momento é muito importante para fortalecermos essa linha e avançarmos nos passos necessários para o desenvolvimento dessa cadeia produtiva”, concluiu.

Assista à audiência pública na íntegra:

 

Rosiani Bion de Almeida | SECOM
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