Marco na UFSC: construção e responsabilidade coletivas orientam a sua política de equidade de gênero

11/09/2026 10:49

Imagem: Oksana Horiun

“O maior desafio deste momento é promover uma mudança na cultura institucional, para que cada unidade reconheça sua responsabilidade na efetivação da política.” A afirmação da pró-reitora de Ações Afirmativas e Equidade, Evelise Santos Sousa, traduz a dimensão do caminho que a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) começa a percorrer: fazer com que a equidade de gênero deixe de ocupar apenas o campo das normas e passe a atravessar, de forma concreta, as salas de aula, os laboratórios, os setores administrativos e as relações cotidianas.

Esse caminho foi delineado por um amplo processo de diálogo e construção coletiva iniciado em 2023. Como resultado, o Conselho Universitário (CUn) aprovou, por unanimidade, em 1º de julho de 2026, a Política Institucional de Equidade de Gênero. A decisão representa um avanço fundamental para a consolidação de uma Universidade mais segura, plural, democrática e comprometida com o respeito às diferenças.

Instituída pela Resolução Normativa nº 231/2026/CUn, a política reconhece que as desigualdades de gênero ainda atravessam a rotina acadêmica e profissional e, por isso, precisam ser enfrentadas por meio de ações permanentes e articuladas. O objetivo é promover a equidade em todas as instâncias da UFSC, com iniciativas educacionais, medidas de assistência e estratégias de prevenção e enfrentamento às violências.

Apresentada pela Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe), a proposta está estruturada em três eixos centrais e complementares: promoção da equidade, assistência e enfrentamento à violência de gênero. Por meio da Coordenadoria de Diversidade Sexual e Enfrentamento da Violência de Gênero (CDGEN), a Proafe será responsável pela coordenação e pela articulação técnica da implementação. A efetividade da política, no entanto, dependerá do envolvimento de toda a Universidade.

“Será necessária uma atuação articulada e monitorada, com ações permanentes de formação e sensibilização, para incorporar a equidade de gênero às práticas de ensino, pesquisa, extensão e gestão e alcançar resultados concretos e duradouros”, ressalta Evelise.

A política adota uma perspectiva interseccional, considerando que gênero, raça, classe, renda, deficiência, maternidade e outras dimensões sociais se combinam e produzem diferentes experiências de desigualdade. Mais do que estabelecer princípios, o documento busca transformar práticas institucionais e contribuir para a eliminação de discriminações, opressões e injustiças.

Suas diretrizes deverão orientar as relações interpessoais, as atividades de ensino, pesquisa e extensão, bem como as práticas administrativas e de gestão. A política alcança toda a comunidade universitária: estudantes, servidores docentes e técnico-administrativos, trabalhadores terceirizados, estagiários, aprendizes, voluntários, visitantes e prestadores de serviços vinculados à UFSC.

A mudança cultural proposta exige que a equidade deixe de ser percebida como atribuição exclusiva de um setor e passe a integrar as decisões, as relações e as práticas diárias de toda a instituição. Trata-se, portanto, de uma responsabilidade compartilhada, cuja concretização dependerá da participação ativa das diferentes unidades e dos diversos segmentos da comunidade universitária.

Segundo Evelise, a aprovação é resultado de um processo verdadeiramente coletivo e participativo. Desde 2023, cerca de 40 representantes de diferentes segmentos da comunidade universitária integraram o grupo de trabalho responsável pela elaboração da proposta. O documento também foi debatido em audiência e consulta pública, ampliando os espaços de escuta e participação social.

“Esse percurso confere legitimidade e representatividade à política, que se soma a outras normativas institucionais, como as políticas de Enfrentamento ao Racismo e para Pessoas Trans, reforçando o compromisso da UFSC com um ambiente universitário plural, inclusivo e respeitoso às diferenças”, afirma a pró-reitora.

Equidade, compromisso permanente

No eixo da promoção da equidade, a resolução distribui responsabilidades entre a Administração Central, os centros de ensino e as demais unidades acadêmicas e administrativas. Estão previstas campanhas educativas, ações de sensibilização, incentivo a pesquisas e estudos de gênero, inclusão da temática nos currículos e oferta de capacitações voltadas à equidade e ao enfrentamento das violências.

As formações serão obrigatórias para servidores ingressantes nas carreiras do Magistério Superior, do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico e para os técnicos-administrativos em Educação. A UFSC também deverá solicitar que as empresas terceirizadas ofereçam capacitação a seus trabalhadores.

Outra medida importante é a incorporação da linguagem inclusiva de gênero à comunicação oficial da Universidade. A orientação abrange ofícios, editais, portarias, resoluções, sites, redes sociais e conteúdos produzidos para rádio e televisão. A Proafe ficará responsável pela elaboração de guias e orientações, com o apoio da Secretaria de Comunicação (Secom) e de profissionais habilitados.

A política também reconhece que a equidade depende da participação efetiva de mulheres e pessoas de gênero dissidente nos espaços de poder e tomada de decisão. Sempre que possível, os órgãos da UFSC deverão assegurar a presença mínima de 50% desse público em cargos de chefia e funções gratificadas de livre indicação, bem como em comissões, grupos de trabalho e mesas de eventos institucionais.

Nos processos eleitorais para a Reitoria, as direções de unidades acadêmicas e as de campi, deverá ser garantida a presença de pelo menos uma mulher ou pessoa de gênero dissidente entre as candidaturas a titular e vice ou suplente. A resolução também estabelece parâmetros de equidade para o CUn, as câmaras acadêmicas, o Conselho de Curadores, os conselhos de unidades e os colegiados de departamentos.

Maternidade, parentalidade e condições de permanência

A política reconhece que as responsabilidades de cuidado ainda afetam de maneira desigual as trajetórias acadêmicas e profissionais. Por isso, o eixo da assistência amplia as medidas de apoio à maternidade e à parentalidade, buscando garantir condições mais justas de permanência, desenvolvimento e participação na vida universitária.

Entre as ações previstas estão a prioridade para mães, pais e responsáveis na adesão ao teletrabalho parcial ou à flexibilização da jornada. Também será assegurada a liberação para reuniões e compromissos escolares de filhos, mediante comprovação e sem necessidade de compensação das horas.

A licença-maternidade de estudantes não poderá ocasionar a perda de bolsas ou auxílios pagos pela Universidade. Além disso, editais que avaliem currículo e produção acadêmica deverão ampliar em, no mínimo, dois anos o período de análise da produtividade científica de mulheres e pessoas de gênero dissidente que tenham passado por parto ou adoção dentro do intervalo considerado.

A resolução determina, ainda, a manutenção e a ampliação do Serviço de Apoio à Amamentação (Saam) e assegura o direito à amamentação livre nos espaços da UFSC. No caso de estudantes em exercício domiciliar, docentes deverão elaborar planos de ensino com flexibilidade didático-pedagógica e avaliativa, respeitando as necessidades relacionadas à maternidade e à parentalidade.

Também estão previstas ações de permanência estudantil, grupos de acolhimento e redes de apoio para mães, pessoas que gestam e famílias no período posterior à adoção. O objetivo é evitar que o cuidado se transforme em barreira para a continuidade dos estudos ou para o desenvolvimento acadêmico e profissional.

Acolhimento e enfrentamento à violência de gênero

No eixo do enfrentamento à violência, a resolução organiza uma rede institucional de acolhimento e define procedimentos para o recebimento, encaminhamento e apuração de denúncias. Essa rede será composta por diferentes setores da Universidade, entre eles Proafe, Pró-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas (Prodegesp), Pró-Reitoria de Permanência e Assuntos Estudantis (Prae), Pró-Reitoria de Graduação e Educação Básica (Prograd), Ouvidoria, Comissão de Ética, unidades de educação básica e equipes dos campi.

As denúncias deverão ser formalizadas junto à Ouvidoria da UFSC, por meio da plataforma Fala.BR, presencialmente ou pela internet. O registro poderá ser realizado tanto pela pessoa afetada quanto por terceiros que tenham conhecimento dos fatos.

Após a qualificação da denúncia, caberá à Ouvidoria encaminhá-la ao setor responsável pela apuração e informar a pessoa denunciante sobre os serviços de acolhimento e atendimento disponíveis.

Confidencialidade, celeridade, escuta ativa e prevenção da revitimização estão entre os princípios que deverão orientar todo o processo. A resolução parte do entendimento de que procurar ajuda ou denunciar uma violência não pode representar uma nova experiência de sofrimento, exposição ou constrangimento.

Entre as medidas de apoio às estudantes estão a flexibilização da frequência, a substituição de avaliações e a ampliação de prazos para a apresentação de trabalhos de conclusão de curso.

A discente denunciante também poderá solicitar medidas protetivas administrativas de urgência, como prioridade na escolha de disciplinas e remanejamento de atividades de pesquisa e extensão. O objetivo é evitar a convivência com a pessoa denunciada e preservar as condições de segurança e permanência na Universidade. Esses pedidos deverão ser analisados no prazo de até cinco dias úteis.

Quando as condutas forem comprovadas, serão aplicadas as penalidades previstas na legislação, sempre com respeito ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa. A resolução prevê o desligamento de estudantes que pratiquem assédio ou violência sexual, assim como a demissão de servidores quando essas condutas estiverem configuradas nos termos legais.

Da aprovação à transformação institucional

Para que a política produza mudanças reais, sua implementação será acompanhada continuamente pelo Comitê Institucional de Ações Afirmativas e Equidade. Os relatórios de monitoramento deverão reunir dados sobre a participação de mulheres e pessoas de gênero dissidente nos cursos, nas carreiras e nos cargos da alta administração, além de informações sobre remuneração, denúncias, processos disciplinares e penalidades.

Esses dados serão fundamentais para identificar desigualdades, avaliar os resultados das ações e corrigir caminhos sempre que necessário. Mais do que acompanhar números, o monitoramento permitirá verificar se os princípios estabelecidos pela política estão sendo efetivamente incorporados ao cotidiano institucional.

A aprovação da Política Institucional de Equidade de Gênero constitui, portanto, um marco para a UFSC. Ao mesmo tempo, reafirma uma responsabilidade coletiva: transformar o texto da resolução em práticas permanentes, recursos, estruturas de acolhimento e mudanças concretas nas relações institucionais.

Acesse a Política neste link.

Leia mais: UFSC tem desafio de enfrentar desigualdades e situações de violência de gênero no ambiente de trabalho

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UFSC realiza lançamento do Seminário Internacional Fazendo Gênero 14

19/08/2026 16:50

UFSC lançou no Auditório da Reitoria o Seminário Internacional Fazendo Gênero 14. Fotos: Gustavo Diehl | Secom

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) lançou oficialmente, na manhã desta quarta-feira, 19 de agosto, no Auditório da Reitoria, o Seminário Internacional Fazendo Gênero 14. Promovido pelo Instituto de Estudos de Gênero (IEG/UFSC), o evento será realizado de 26 a 30 de julho de 2027, na Universidade, com o tema “Corpos-territórios: (eco)feminismos diversos na luta por vidas”. Realizado pela UFSC há mais de 30 anos, o Fazendo Gênero reúne atividades relacionadas aos estudos sobre feminismos, gênero e sexualidades e deve receber, em sua 14ª edição, pesquisadores, estudantes, membros de movimentos sociais, gestores públicos, artistas, ativistas e interessados no tema.

Participaram da mesa de autoridades as ministras das Mulheres, Márcia Lopes, e da Igualdade Racial, Rachel Barros; o reitor da UFSC, Amir de Oliveira; a vice-reitora, Felipa Amadigi; a diretora do IEG, Débora de Carvalho Figueiredo; e as coordenadoras do Fazendo Gênero 14, Juliana Salles Machado e Jozileia Kaingang.

Em sua manifestação, o reitor Amir afirmou que “os estudos de gênero têm impacto fundamental na definição de políticas públicas, na definição de direitos e na assistência à saúde, à educação e à cultura, em todas as organizações públicas e privadas, entre as quais a nossa Universidade”. O reitor também mencionou desigualdades como a disparidade salarial, a sub-representação das mulheres, a violência, a intolerância política e a sobrecarga de trabalho invisível. Segundo ele, “o diálogo sobre o gênero é indispensável para propor caminhos à igualdade, à equidade e à inclusão, além de concretizar a responsabilidade da universidade pública de participar desse debate e contribuir com a sociedade brasileira”.

Amir destacou ainda a universidade pública como espaço para o diálogo entre diferentes vozes, histórias, experiências e percepções. Sobre a realização do seminário, informou que a Universidade participa da organização e das providências necessárias para a realização do evento.

A vice-reitora Felipa destacou a trajetória do Fazendo Gênero, “que ao longo de sua história, tornou-se um espaço de produção de conhecimento, de encontro, de resistência e de transformação. É um espaço que aproxima a Universidade dos movimentos sociais, reúne diferentes gerações e coloca em diálogo experiências, pesquisas e lutas que ajudam a compreender e transformar a sociedade”, afirmou.

Felipa também relacionou o tema do seminário ao enfrentamento da violência contra as mulheres. Para a vice-reitora, o enfrentamento ao feminicídio exige redes de proteção capazes de acolher as mulheres e oferecer condições para o rompimento dos ciclos de violência. Ela também destacou que diferentes grupos de mulheres podem vivenciar situações de violência e encontrar diferentes condições para buscar ajuda. “Que mulheres estamos conseguindo proteger? Quem consegue chegar aos serviços? Quem é ouvida quando denuncia? E quem encontra condições reais para sair de uma situação de violência?”, questionou.

Felipa afirmou ainda que a produção de conhecimento deve contribuir para a compreensão das situações de violência e para a formação de pessoas capazes de reconhecer essas situações e acolher sem revitimizar. A vice-reitora também abordou a relação entre a produção acadêmica e as políticas públicas. “Esperamos que o que for produzido e debatido em nossa instituição consiga chegar às políticas públicas, aos serviços e à vida concreta das pessoas”, disse.

A ministra Rachel definiu o Fazendo Gênero como uma construção coletiva que reúne conhecimento, militância, arte, política e diferentes formas de manifestação. “O evento nos ajuda a pensar em perguntas muito importantes: qual sociedade queremos construir e o que estamos interessados a fazer para construir uma sociedade plural e diversa que tanto defendemos?”, afirmou.

Ao comentar a proposta de “reflorestar mentes, territórios e saberes”, apresentada no documento orientador da próxima edição, a ministra destacou a valorização de conhecimentos e memórias historicamente silenciados ou tratados como inferiores. “Esses saberes precisam ser valorizados e ocupar o centro da produção do conhecimento. Estamos falando de território, sexualidade, deficiência e dessa encruzilhada chamada interseccionalidade, que aparece de maneira muito significativa na proposta do Fazendo Gênero”, ressaltou.

A ministra Márcia ressaltou a dimensão histórica do Fazendo Gênero e o desafio de organizar um encontro internacional em que os conhecimentos e as propostas produzidas no evento ultrapassem os limites da Universidade. Durante a cerimônia, Márcia Lopes informou o apoio do Ministério das Mulheres ao Fazendo Gênero 14. A ministra também destacou a importância da integração entre políticas de gênero, raça e etnia e áreas como saúde, educação, assistência social, habitação, trabalho e previdência.

Antes da solenidade, as ministras participaram de uma reunião no Gabinete da Reitoria com representantes do IEG, da organização do Fazendo Gênero 14, de movimentos sociais e da comunidade universitária. O encontro tratou da preparação do seminário e de avanços e desafios enfrentados pelas universidades públicas.

Na ocasião, o reitor e a vice-reitora da UFSC entregaram às ministras um documento que reúne projetos e atividades desenvolvidas pela UFSC e indicaram possibilidades de articulação com os ministérios das Mulheres e da Igualdade Racial.

Mais informações na página do evento e no Instagram.

Rosiani Bion de Almeida | Setor de Imprensa do GR | Secom
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Fotos: Gustavo Diehl | Agecom | Secom

Tags: Fazendo Gênero 14IEGMinistério da Igualdade RacialMinistério das MulheresUFSC

Homenagem à professora Mara Lago: ‘uma vereda firme e acolhedora’

10/10/2025 16:55

Uma tarde de memória, afeto e reconhecimento marcou a homenagem póstuma à professora emérita Mara Coelho de Souza Lago, realizada na sexta-feira, 10 de outubro, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no Campus Trindade, em Florianópolis. O tributo, integrado às comemorações dos 30 anos do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH), reuniu colegas, familiares e estudantes e promoveu o compartilhamento de lembranças e reflexões sobre o legado da educadora, nas palavras da vice-reitora Joana Célia dos Passos, da filha Fernanda Lago e das professoras Miriam Pillar Grossi, Tânia Ramos e Luciana Zucco.

A professora Miriam abriu a homenagem destacando que havia muito a celebrar: “não apenas datas e marcos institucionais, mas uma memória ativa, a que se renova no gesto de transmitir”. Ela enfatizou que compartilhar os ensinamentos de Mara é reconhecer que sua presença se manifestou em múltiplos planos: o acadêmico, rigoroso e criativo; o pessoal, feito de cuidado cotidiano; o afetivo, que sustentou tantas pessoas; e o político, sempre atento ao futuro.

“‘Teoria é prática com paciência’, ela dizia em nossas reuniões, lembrando que o conhecimento ganha sentido quando devolvido às pessoas e aos territórios que o tornaram possível”, recordou Miriam, citando uma das máximas que orientavam o trabalho da homenageada. A professora ainda evocou Paulo Freire para lembrar que, com Mara, aprenderam “a caminhar juntas e juntos, a sustentar dissensos sem abrir mão da escuta, a transformar pesquisa em presença e presença em compromisso”.

Fernanda, filha de Mara, emocionou os presentes ao descrever o momento em que a família compreendeu a dimensão do impacto da professora. “Ainda no hospital, quando resolvemos compartilhar informações sobre o estado dela, entendemos a dimensão do que estava acontecendo: muita gente queria saber, participar, mandar um recado”, relatou. Como filhas, conheciam a professora, a pesquisadora, a militante. “Mas foi ali que percebemos o tamanho do alcance da professora Mara”, disse.

Fernanda destacou que, a cada mensagem recebida, ficava claro que a mãe havia tocado vidas “de modos discretos e profundos, muitas vezes sem alarde”. Citando Clarice Lispector, ela refletiu: “O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós; e a Mara parecia ter esse dom de criar o possível dentro do impossível cotidiano das pessoas”.

Ao encerrar sua participação, Fernanda agradeceu o gesto da homenagem e expressou o desejo de que a memória da professora siga “não como um retrato na parede, mas como prática viva — aquela que nos pega pela mão, mesmo quando a mão já não está”.

Rigor intelectual, generosidade e elegância

A professora Luciana Zucco, que conheceu Mara em 2015, definiu o encontro como “curto quando medido em anos, mas longo quando medido em encontros”. O que sempre a impressionou foi “a combinação pouco comum entre rigor intelectual, generosidade e elegância”. Pioneira, Mara abriu caminhos para mulheres de diferentes gerações, “muitas vezes quando ‘não havia estrada’”, conseguindo construir “uma vereda firme e acolhedora”.

Luciana ressaltou a contribuição decisiva da professora para o fortalecimento dos estudos feministas e de gênero na UFSC, no Brasil e além das fronteiras. Na Revista de Estudos Feministas (REF), como editora e coordenadora editorial, Mara praticou o que Audre Lorde chamaria de “cuidado como prática de liberdade”: estimulava novas vozes, valorizava experiências e abria espaço para olhares plurais.

Parceria inseparável e compromisso com o feminismo

A professora Tânia Ramos, parceira inseparável de Mara na edição da REF, emocionou-se ao relembrar a amizade que se confundia com trabalho e militância. “Quem nos conhecia sabia: éramos parceiras, amigas, inseparáveis — ‘Mara e Tânia’, quase um composto, cada uma inteira e, ao mesmo tempo, metade da outra”, declarou.

Tânia compartilhou um texto que recebeu de sua orientanda Mariana Volt, na noite do adeus no Crematório Vaticano: “Tudo o que aprendi sobre amizade, aprendi sentada no banco de trás do carro da Mara”. A estudante contou ter aprendido, naquelas viagens, que ciência se faz com amizade; que é preciso ler as subjetividades; que há sempre bons textos para compartilhar; e que livros seguem sendo grandes presentes.

A professora descreveu o cotidiano da parceria na REF, onde muitas decisões nasciam em cafés de fim de tarde. “Conhecemos quase todos os cafés de Florianópolis”, contou, mencionando o Café Jardins, na esquina da Rio Branco, como porto preferido. Quando retornou ao local após a morte de Mara, as atendentes perguntaram pela companheira, e uma delas chorou ao saber da notícia.

Tânia destacou que, em todos os editoriais, fazia-se visível o desejo de Mara de que as editoras se colocassem “como feministas posicionadas frente às desigualdades, deixando transparecer, além da perspectiva acadêmica, a nossa humanidade”. A professora lembrou ainda das manifestações de rua que frequentavam juntas e da convicção de Mara: “Não é o mar que me encanta, Tânia, são as árvores”.

Intelectual engajada e feminista em movimento

A vice-reitora Joana Célia dos Passos trouxe a imagem de Mara nas ruas — nas manifestações em defesa da democracia, no movimento “Ele Não”, na luta pela universidade pública, na Marcha Mundial das Mulheres. “Como ensinou Angela Davis, quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se desloca; com a Mara, quando a feminista se movia, a universidade também precisava se mover”, afirmou.

A vice-reitora ressaltou que Mara não admitia separação entre o trabalho intelectual e a política do cotidiano. “Ela nos formou feministas porque praticava o afeto como princípio pedagógico, transformando orientação em diálogo e cuidado, e cuidado em compromisso”, disse, lembrando que a homenageada perguntava sempre “para quem” e “com quem” produzimos conhecimento.

Um legado para gerações

Professora emérita desde 2011, Mara Lago construiu uma trajetória decisiva para a universidade e para os estudos de gênero no país. Ingressou na UFSC em 1969, foi uma das fundadoras do curso de Psicologia e pioneira na criação do Serviço de Atenção Psicológica (Sapsi) e do Laboratório de Psicologia Experimental. Liderou a implantação do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, do qual foi a primeira coordenadora, e colaborou na criação do PPGICH, do Instituto de Estudos de Gênero (IEG) e da Revista de Estudos Feministas (REF).

Mesmo após a aposentadoria compulsória, em 2010, seguiu como docente e pesquisadora voluntária, mantendo presença ativa em atividades acadêmicas e em mobilizações públicas em defesa das mulheres e da diversidade. Graduada em Pedagogia, mestre em Antropologia Social e doutora em Psicologia da Educação, Mara dedicou sua produção às interfaces entre psicologia, educação, subjetividades, gênero e modos de vida, com reconhecida contribuição interdisciplinar.

Ao longo da carreira, orientou dissertações e teses, participou de mais de uma centena de bancas e publicou cerca de 70 obras entre livros e artigos. Nascida em Caçador (SC) e radicada em Florianópolis desde a infância, tornou-se referência intelectual e humana para gerações de pesquisadoras e pesquisadores, deixando um legado que se sustenta não apenas em marcos institucionais, mas também — e sobretudo — em uma ética do cuidado e em um compromisso com a transformação social.

 

Rosiani Bion de Almeida | Divisão de Imprensa do GR
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Aprovada concessão do título de Emérito a docentes de Antropologia da UFSC

28/08/2025 15:34

Por ampla maioria dos votos, o Conselho Universitário (CUn) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) aprovou a concessão do título de Professor(a) Emérito(a) a três docentes vinculados ao Departamento de Antropologia do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH). A aprovação ocorreu em sessão especial no dia 26 de agosto de 2025, onde foram apresentadas as propostas pelos conselheiros Michel Angillo Saad, Erasmo Benício Santos de Moraes Trindade e Guilherme Jurkevicz Delben.

Conforme previsto no Estatuto da UFSC, a Dignidade Universitária é concedida “a membro de pessoal docente aposentado, pelos altos méritos profissionais ou por relevantes serviços prestados à Instituição”, sendo concretizada “em diplomas e medalhas a serem entregues à personalidade ou entidade homenageada, em sessão solene na Universidade”.

Rafael José de Menezes Bastos, Esther Jean Langdon e Miriam Pillar Grossi foram os docentes escolhidos para receber o título da UFSC. A seguir, apresenta-se um breve perfil de cada um(a), elaborado com base nos pareceres submetidos à análise do CUn:

Rafael José de Menezes Bastos

Rafael José de Menezes Bastos

O pedido de homenagem ao professor Rafael José de Menezes Bastos foi o primeiro a ser analisado pelo CUn, em reconhecimento à sua ampla trajetória acadêmica e às relevantes contribuições à área da Antropologia.

Sua formação acadêmica é marcada por um sólido percurso: graduado em Música pela Universidade de Brasília (1968), mestre em Antropologia Social pela mesma instituição (1976) e doutor em Ciências Sociais (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (1990). Além disso, realizou estágios de pós-doutorado na França, nos Estados Unidos e no Canadá.

Ingressou como docente na UFSC em 1984 e, em 2014, foi promovido ao cargo de professor titular. Durante sua atuação na Universidade, consolidou uma trajetória acadêmica de grande relevância, com amplo reconhecimento nacional e internacional. Sua produção científica abrange mais de uma centena de artigos em periódicos qualificados, capítulos de livros e obras autorais que se tornaram referências nos campos da Etnologia e da Etnomusicologia Indígenas. Adicionalmente, atua como parecerista e conselheiro editorial em periódicos científicos no Brasil e no exterior, evidenciando seu prestígio e inserção na comunidade acadêmica internacional.

Para além de sua vasta produção bibliográfica, o professor Bastos se destacou por sua atuação institucional e formativa. Ele fundou e coordenou o núcleo de estudos Arte, Cultura e Sociedade na América Latina e Caribe (MUSA), coordenou o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS/UFSC) e integrou diversos conselhos acadêmicos. Também foi professor visitante em universidades da Europa, América do Norte e América Latina. Sua contribuição vai além dos números, refletindo-se na consolidação de linhas de pesquisa, na formação de novos acadêmicos e no fortalecimento da Antropologia como campo científico no Brasil.

Esther Jean Langdon

Esther Jean Langdon

Na sequência, o Conselho Universitário apreciou a concessão do título de Professora Emérita à professora Esther Jean Langdon, reconhecida por suas contribuições pioneiras à Antropologia e à saúde indígena.

Sua carreira na UFSC começou em 1983, como professora visitante, tornando-se docente efetiva em 1988. Mesmo após sua aposentadoria, permaneceu ativamente vinculada à instituição como voluntária e pesquisadora sênior do CNPq. Sua produção científica é extensa, com mais de uma centena de publicações nacionais e internacionais, além de uma atuação marcante na formação de recursos humanos, com a orientação de mais de 100 trabalhos de graduação e pós-graduação.

Entre suas contribuições mais relevantes, destacam-se os estudos pioneiros em xamanismo, antropologia da saúde e povos indígenas, com atenção especial às populações amazônicas, como os Siona. Sua atuação no campo da saúde indígena foi decisiva para a consolidação dessa área no Brasil, influenciando tanto o meio acadêmico quanto a formulação de políticas públicas. Além disso, a professora contribuiu significativamente para os estudos sobre narrativa, performance e ética em pesquisa.

Esther Langdon também exerceu um papel de liderança institucional, coordenando o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Brasil Plural (INCT) por mais de uma década. Sua atuação foi central na internacionalização da UFSC e no fortalecimento das ciências humanas no Brasil. Em 2022, recebeu o Prêmio de Excelência Acadêmica da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS). Em 2023, a Editora da UFSC publicou o livro Uma antropologia da práxis, com textos de mais de 40 autores que celebram sua obra e trajetória.

Miriam Pillar Grossi

Miriam Pillar Grossi

Por último, o Conselho Universitário avaliou o título de Professora Emérita à professora Miriam Pillar Grossi, amplamente reconhecida como uma referência nacional e internacional no campo da Antropologia.

Sua trajetória na UFSC começou em 1989, quando passou a atuar no Departamento de Antropologia. Desde então, a professora contribuiu significativamente para a projeção do departamento e do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH). Suas áreas de especialização incluem história da antropologia, feminismo, sexualidade, violências, gênero e diversidade sexual, políticas públicas, educação e diversidades, além de metodologias de pesquisa qualitativas.

Além de sua atuação como pesquisadora e docente, Miriam Grossi desempenhou um papel fundamental na formação de novos acadêmicos. Fundou, em 1991, o Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividade (NIGS) e, ao longo de sua carreira, orientou mais de 200 estudantes em iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

A professora ocupou posições de destaque, como coordenadora do Instituto de Estudos de Gênero (IEG/UFSC) em duas gestões (2013-2015 e 2017-2020), presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) na gestão 2004-2006 e, atualmente, vice-presidente eleita da International Union of Anthropological and Ethnological Sciences (IUAES) para o período 2023-2027. Também coordena a Commission of Global Feminisms and Queer Politics.

Sua contribuição acadêmica vai além da produção científica, refletindo-se na promoção de debates sobre gênero e diversidade e no fortalecimento da Antropologia como campo de estudo interdisciplinar e transformador.

 

Rosiani Bion de Almeida | SECOM
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Inscrições abertas para Conferência Livre de Mulheres na UFSC

28/07/2025 14:45

Em preparação para a 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres (CNPM), a Conferência Livre de Mulheres na UFSC será realizada no dia 12 de agosto de 2025, às 18h30, no Auditório do Centro Socioeconômico (CSE), no campus Trindade, em Florianópolis. Este será um espaço aberto de escuta, debate e construção coletiva de propostas para o fortalecimento de políticas públicas voltadas às mulheres. Interessadas em participar podem realizar sua pré-inscrição neste link.

O evento é organizado pelo Instituto de Estudos de Gênero (IEG/UFSC), em parceria com a Cátedra Antonieta de Barros/UFSC, Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM), Governo Federal e o Ministério das Mulheres. O evento busca promover um diálogo democrático e inclusivo, envolvendo estudantes, servidoras, professoras, técnicas, trabalhadoras e ativistas para a formulação de propostas concretas que possam impactar positivamente a sociedade.

A Conferência Livre é uma oportunidade única para exercer a cidadania ativa e colaborar na construção de políticas públicas que reflitam as vivências e necessidades reais das mulheres. É um momento de mobilização, troca de experiências e formulação de ideias que podem direcionar as ações do Estado, combater desigualdades e ampliar direitos. Os documentos-base e as propostas que serão debatidas estão disponíveis neste site.

Serviço

Evento: Conferência Livre de Mulheres na UFSC
Data: 12 de agosto de 2025
Horário: 18h30
Local: Auditório do Centro Socioeconômico (CSE) da UFSC
Entrada: Gratuita e aberta ao público

 

Coordenadoria de Imprensa do GR / SECOM
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